Ainda a história de Lagoa Formosa – Coluna Célio Fonseca

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Retomando o propósito número 1 dessa nossa coluna, vamos continuar enfocando alguns fatos importantes da história de Lagoa Formosa e que contribuíram para a formação da identidade do nosso povo.

Nossa proposta agora é enumerar alguns locais que existiram, cumpriram o papel a que se propuseram, e inconscientemente acabaram contribuindo para a formação social e cultural do povo desse lugar. Durante o transcurso da história, muitos foram os locais sistematicamente frequentados pelos cidadãos e cidadãs lagoenses e que por isso, acabaram sendo gravados na história.

Como é natural em todo arraial que se forma, aqui não havia muitos locais que chamassem a atenção dos moradores para serem sistematicamente frequentados. As principais reuniões sociais aconteciam nas festas religiosas e comemorações familiares das quais toda a pequena população participa. Todos eram conhecidos entre si e por isso não havia muita formalidade quanto a convite para participação nas festividades domésticas.

O arraial se formava a olhos vistos. Já era possível evidenciar uma enorme praça que era chamada praça do largo da Igreja e depois Praça Nossa Senhora da Piedade. Saindo dela, algumas casas já delineavam as futuras ruas – Rua dos Carneiros que depois tornou-se Rua João Carneiro e a Rua dos Fonseca que se tornaria Rua Clarimundo Fonseca. Como as casas eram edificadas sem a preocupação com alinhamentos e posições, as ruas foram sendo formadas sem a menor preocupação com largura ou comprimento e sem obedecer a exigências comuns aos loteamentos atuais. Prova disso  é o diminuto espaço reservado para pedestres do lado direito da rua Clarimundo Fonseca.

As primeiras reuniões ocasionais existiram nos pátios das fazendas da época onde meieiros, agregados, capatazes e senhores das fazendas, se reuniam para uma boa prosa, uma roda de cantoria, rezas ou comemorações, essas regadas com uma boa aguardente e até nacos de carne assada ali mesmo, numa improvisada churrasqueira.

Quando o povoado tomava corpo ao lado da praça do largo da igreja, começavam a surgir estabelecimentos para os quais concorriam os rapazes do lugar, após um exaustivo dia de lida na fazenda ou nas lavouras que predominam nas atividades laborais da época. Terminadas as atividades determinadas para aquele dia de trabalho, os rapazes chegavam  logo em casa para o reconfortante banho de água quente naquelas tinas que mal cabiam os corpos esguios daqueles homens trabalhadores. Para os mais afoitos, o banho era no córrego do sapé, na babilônia, na lagoa ou em qualquer local onde a água cristalina se oferecesse para tal. Ainda era dia de sol alto quando os homens se deliciavam com o suculento jantar cozido na banha de porco. Isso feito, era hora de um tapa no visual para uma voltinha pelo arraial para encontrar os colegas para os mais ousados e criativos causos. De forma aleatória, foram eleitos pontos onde os rapazes se reuniriam. No largo da igreja, onde frondosas árvores naturais dominavam a paisagem, foi o principal local determinado para esses encontros de fim de tarde. Era curioso o fato de que era rara a presença de homens casados. Esses tinham como hobby a visita a parentes e vizinhos, quando seriam acompanhados pelas esposas e filhos menores.

Pouco a pouco surgiram as tradicionais “vendas”. Estes estabelecimentos tinham como objetivo o comércio de gêneros alimentícios, bebidas, utensílios, e tudo mais que pudesse ser útil para aquele povo que habitava o recém-formado povoado. Essas “vendas” pouco a pouco se tornaram ponto de encontro social. Uma mesa em madeira maciça, cadeiras também em madeira, uma garrafa de aguardente, uma caneca esmaltada ou uma cuia de cabaça e estava armada a cena para deleite dos homens do lugar. Mulheres não frequentavam esses ambientes. Raríssimas vezes algumas se atreviam a estar no local, apenas para comprar alguma coisinha útil no seu trabalho doméstico.

Não tardou muito e deram-se os surgimentos dos primeiros estabelecimentos, as primeiras lojas para comércio de utilidades. Essas lojas passaram a ser ponto de encontro de muitos homens casados cuja frequência às “vendas” era pouco recomendável nos moldes sociais da época.

Nas “vendas” eram comercializadas  mercadorias comuns produzidas nas fazendas da região e também produtos “importados”, que eram trazidos pelos tropeiros que iam constantemente a centros maiores. Pentes,  linhas, botões dentre outros. Mas o carro chefe do estabelecimento era justamente a aguardente e um tira gosto caprichado de torresmo, pelota de carne bovina, barrigada cozida e outros mais.

As lojas surgiram logo a seguir no decorrer da história. Essas negociavam mercadorias diversificadas incluindo aquelas negociadas nas “vendas” como linhas, botões, pentes, etc. Pouco a pouco as lojas detiveram a hegemonia desse negócio fazendo com que as vendas se tornassem bares comuns, com bebidas, tira gosto e biscoitos. Outras dessas afastaram as bebidas, biscoitos etc e negociavam gêneros alimentícios e se tornaram armazéns.

Muitas foram as lojas que se instalaram nos primeiros tempos no arraial. Logo ali, na Praça do largo da igreja(hoje Praça N.S. da Piedade) no cruzamento com a rua Sinhô Limírio, estava a loja do Sr. Sebastião Cascudo. Ali era fácil encontrar moradores da zona rural, principalmente das regiões do Pião, Maxixe, Pindura Saia (hoje Campina Verde). Todos aqueles que vinham dessas localidades, passavam obrigatoriamente pela loja do Sebastião Cascudo. O movimento ali era considerável para a época. Com o tempo, outras muitas surgiram: a loja do Calimério Dias ( a Casa Dias), a loja do Sinhozinho, do Zizi, o armazém do João Gomes, o armazém do Joaquim Moreira, do Uriel dentre outros que falaremos oportunamente. Num arraial distante de grande centros, os pontos de encontros cumpriram papéis sociais muito importantes.

Nos primeiros anos de nosso arraial e mesmo já no distrito de Lagoa Formosa e na cidade dos anos 50 a 60, esses estabelecimentos ganharam portanto uma importância notória. Ainda no tempo de  arraial e no distrito, eles não conseguiram tamanha projeção e importância como nos anos seguintes da história, poucos anos antes e poucos anos depois da instalação do município. A sociedade extremamente tradicionalista e fechada aliada com a pouca influência de grandes centros devido a dificuldade de comunicação e de interação entre esses centros e o interior do país, contribuíram para que não acontecesse radicais mudanças sociais. O estilo patriarcal conservador não abria qualquer espaço para que a juventude pudesse pelo menos esboçar reação ao então sistema social vigente. Podemos afirmar seguramente que os anos 60 tornaram os mais importantes da nossa história lagoense, no que tange a quebra da estrutura social até então dominante. E nesse tempo, alguns eram os pontos onde se confabulavam inconscientemente sobre parâmetros que marcariam a inauguração e uma nova sociedade.

A Rua da Genésia (hoje Rua Juca Limírio) era o centro social e comercial dos anos 60. Todo o movimento concentrado até então na praça do largo da igreja foi aos poucos sendo transferido para essa rua, devido a posição geográfica e a concentração de lojas e bares no logradouro. Próximo a extremidade norte da Rua da Genésia, onde hoje se estabelece o Mercado Roda Viva estava o Bar da Alda. Esse estabelecimento foi um importante ponto de convergência para rapazes e senhores da época.

O Bar da Alda não apresentava nenhuma novidade em relação a muitos outros que vieram a se instalar aqui e nem a outros estabelecimentos do gêneros, comuns em todas as cidades do interior. Na primeira sala, logo atrás de um balcão comum, estava a prateleira repleta de garrafas de cachaça, a bebida preferida pelos frequentadores para animar uma boa conversa. No balcão em forma de vitrine, estariam biscoitos fresquinhos fabricados por aqui mesmo, doces, balas e outras guloseimas. Na segunda sala, uma enorme banca de “sinuca” de 15 bolas, onde eram travadas verdadeiras batalhas  entres os adeptos a este tipo de jogo. Diariamente, no início das noites, aí se reuniam muitas pessoas. A competição era tamanha que, aos sábados, era organizado um pequeno campeonato entre as feras do taco. Os embates se alastravam pelo dia inteiro, chegando as primeiras horas do dia seguinte.

Mas o papel importante do Bar da Alda não foi somente por aquilo que oferecia aos seus frequentadores. Ele estava numa das extremidades da rua da Genésia (hoje rua Juca Limírio), onde aconteceria em breve o vai e vem, principal manifestação da revolução social que ocorrera em Lagoa Formosa nos idos dos anos 60.  O Bar da Alda  tornou-se uma espécie de QG dos rapazes que se preparavam ali para mergulhar na aventura de encontrar uma garota naquela rua apinhada de donzelas e mancebos. Por isso mesmo o bar acabou tendo a sua importância no movimento social. Os rapazes mais experientes passavam por ali, conversavam um pouco e estariam prontos para o desfile de ida e volta na rua. Os mais novos, iam a proximidade do bar, conversavam com os presentes, observavam o movimento e só depois se arriscavam a estar junto aos demais. As mulheres não iam ao Bar da Alda. No máximo, um grupo de amigas se reunia na casa de uma delas para o último retoque no visual e iam direto para a rua passear de braços dados 2 a 2 ou 3 a 3, esperando os galanteadores rapazes que não demorariam a entrar no passeio.

Motivados pelo destaque do Bar da Alda, outros vários foram criados pela cidade. Do lado oposto da rua, bem em frente, foi criado o Bar do João do Justo. Este passou logo a ser também um QG da rapaziada antes do vai e vem. Esse bar ficou famoso por, dentre outras coisas, possuir uma sinuca com bolas de marfim, consideradas pelos jogadores como perfeitas para truques e efeitos com as bolinhas coloridas e os tacos. Daí a pouco veio o Bar do Sebastião Marinho um pouco mais acima e na extremidade oposta da rua, o Canela Roxa que se tornou importante destaque no movimento do vai e vem. Sobre este falaremos depois.

O Bar da Alda também foi cenário para um importante acontecimento. Os proprietários adquiriram um aparelho de televisão(neste tempo em preto e branco) e instalaram na parte externa do bar, para que todos os presentes naquela rua pudessem apreciar as primeiras imagens televisadas que se tinha notícia neste interior mineiro. Tão logo o aparelho mostrou a imagem “chuviscada” da TV Itacolomi de Belo Horizonte, a multidão se aglomerou para apreciar a novidade. Parece mesmo que uma população inteira estava ali desfrutando da maravilha daquele mágico aparelho. E olha que a imagem oferecida pelo aparelho era de qualidade sofrível. A reunião popular provocada pela curiosidade, fez aguçar o desejo daquele povo em conhecer inovações até então jamais sonhadas neste rincão das Minas Gerais. Foi possível despertar para a existência de algo mais além do trabalho diário e do jogo de sinuca ou de truco, principais opções de diversão nas noites do lugar. E toda reunião social tem lá seus efeitos positivos no entrosamento e no diálogo tão importante para um povo que vivia dentro dos mesmos limites.

Enquanto isso o Bar da Alda desempenhava o seu papel na poenta Lagoa Formosa, o que perdurou por muitos anos ainda até, na ordem natural das coisas, ser desativado e passar seu nome para a história.

Outros muitos locais tiveram igual importância na história do arraial, do distrito e da cidade recém-instalada. Oportunamente voltaremos a destacar outros locais  destaques na história.

FOTOS: CÂMARA MUNICIPAL E DEOCLECIANO MUNDIM.