Descobrindo a Identidade de um Povo – A Festa dos Nêgo – Coluna Célio Fonseca

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Lagoa Formosa sempre foi um lugar de muita alegria e festa, onde as comemorações até os nossos dias, quaisquer que sejam, ganham proporções imensas e às vezes inimagináveis.

O processo de colonização das terras lagoenses conta histórias das mais divertidas e interessantes, passando pelas comemorações religiosas e cívicas, cada uma a seu modo e em seu lugar. As festas religiosas foram as mais marcantes porque alinhavam-se diretamente com a crendice popular e a obrigatoriedade de participação, como se fosse um ritual orante e forçoso .

Uma das primeiras dessas festas religiosas que se tem notícias e que fizeram parte da identidade cultural de Lagoa Formosa, foi a festa dos Nêgo.

Com as primeiras famílias que chegaram às terras lagoenses, vieram também tradições diversas que passaram rapidamente a integrar  as muitas manifestações culturais do lugar. Uma delas é essa festa dos Nêgo.  O nome da festa era uma referência popular dado a presença dos moçambiqueiros, ternos que dançavam e cantavam louvando a Virgem Maria, Nossa Senhora do Rosário, ao ritmo de atabaques, caixas, instrumentos e vozes criteriosamente treinadas para os hinos de louvação. Os ritmos musicais frenéticos e bem marcados, foram herdados dos navios negreiros e das senzalas das grandes fazendas do tempo da escravidão. Há escritos antigos que dão a origem dessa festa como sendo uma celebração em senzalas de grandes fazendas, envolvida no culto à Virgem do Rosário. Afirmam tradições orais que, por trás deste ato de louvação  a Maria mãe de Jesus Cristo, estava a oportunidade dos escravos de terem sua festa própria, abstendo-se da obrigação de servidão aos senhores coronéis e familiares de então.

Independente dos objetivos para os quais a festa se instalou em terras lagoenses, a festa dos nêgos era um momento muito especial nos primeiros tempos. Os rituais da dança dos moçambiqueiros assim como o ritmo sempre característico das melodias entoadas, contagiaram as grandes fazendas. E dentro em breve já estariam todos dançando em homenagem à N.S.  do Rosário. Todos juntos: negros, brancos, senhores, escravos etc.

Faz grande sentido aquilo narrado pelos nossos antepassados. Os escravos das grandes fazendas da época não tinham o direito de participação das principais festas e comemorações de então, como convidados para se divertirem. Na verdade a participação deles restringia-se ao serviço aos patrões. Estes sim  é que se divertiam às pampas.  A festa dos nêgo, segundo diziam, nasceu nas senzalas e reuniam apenas os escravos que, em  nome da fé, faziam uma grande festa e se divertiam muito. Não tardou muito e os “brancos” se juntaram a esses e tornaram a festa dos nêgo muito grande e bonita.

“Já estamos em outubro. A corrida às lojas de tecidos e aos empórios existentes no lugar prenunciavam alguma coisa. Eram os preparativos para a festa de Nossa Senhora do Rosário tradicionalmente realizada em 8 de outubro. Mas o que havia de tão especial nesta comemoração que a fazia merecer um enfoque muito especial na história de Lagoa Formosa ?

Fundamentada numa rica tradição afro-brasileira, essa festa era o segundo acontecimento social mais esperado no arraial de “Lagoa das Éguas”( nome popular do povoado que precedeu Lagoa Formosa). Sua popularidade perdia apenas para a cavalhada, campeã absoluta na preferência do povo local.

O grande mérito dessa festa dos Nêgo não estava apenas no acontecimento social. Estava também nas raízes, na sua essência, no gingado africano, nos rituais próprios e até no colorido meio exagerado para o gosto do Brasil imperial. Tudo isso é que fazia a grande diferença da efeméride. Era sem dúvida uma festa muito popular. Não se fazia restrições e nem possíveis divisões sociais eram capazes de impedir  a multidão que, ao primeiro toque da caixa, da sanfona e do “xique-xique” estariam na rua, acompanhando o Rei e a Rainha do congado e toda sua corte, vestida a rigor para a festa.  Mesmo alguém que se julgasse mais moderno não fazia caso. Vestia o uniforme  e ia participar da festa dos Nêgo.

O uniforme era o mesmo para homens e mulheres. Vestidos à altura do joelho, em cetim colorido, verde ou azul claro, adornado com fitas também de cetim de várias cores que saiam da altura dos ombros e iam à cintura. Os mais exagerado teciam com essas  fitas um cinto que adornava a cintura e dele deixavam cair algumas pontas indo até a barra da vestimenta. As cores destes uniformes tinham muito a ver com influência africana, caracterizada por cores vivas sem a mínima preocupação de combinações de cores ou estilos. Todos deveriam estar paramentados para integrarem a ala dos dançarinos.

A origem africana marcou também os ritmos, o toque de caixa bem batido e marcado. A poesia dos cantos entoados era bem brasileira e era uma oração à virgem do Rosário, numa mistura de súplica, louvação e agradecimento à interseção da santa. Contam que nas primeiras edições da festa, um dos dançadores improvisava a poesia. Pouco tempo depois, com o crescimento da festa, o capitão era responsável pela declamação. Para isso treinava dias antes decorando o texto previamente produzido.

Não se sabe ao certo porque Festa dos Nêgo afinal, não eram apenas crioulos cafuzos ou mancebos a se deliciarem nas comemorações. Muitos brancos se misturavam nas alas dançantes, num espetáculo de muita cor e de muita beleza. Na prática, Nêgos eram todos aqueles que punham o uniforme colorido e saiam participando do desfile pelas ruas do arraial.

A manifestação cultural e religiosa teve lugar nos ritos de devoção à Nossa Senhora do Rosário até hoje tida como protetora e padroeira da festa dos Nêgo.

Havia toda uma organização  no ritual inclusive com uma hierarquia observada para composição das filas que se seguiam após a passagem do Rei e da Rainha dos moçambiqueiros. Logo a frente do cortejo, deveria estar um estandarte em cetim branco ( que de tão antigo e surrado já era meio bege) onde estava estampada a imagem de Nossa Senhora do Rosário. O estandarte deveria abrir o caminho para o cortejo real. Depois da figura da santa é que viriam o rei e a rainha perpétuos da festa. Eram geralmente figuras idosas que eram escolhidas pela afinidade das mesmas com os rituais dos moçambiqueiros. Esses reinavam enquanto vidas tivessem. Ambos caminhavam juntos puxando a fila dos dançadores. Ao seu lado, estavam 2 pajens que traziam sobrinhas para protegerem as majestades dos raios do sol costumeiramente causticantes neste período do ano. O rei e a rainha perpétuos eram escolhidos pelos antecessores ou por sua família para que tivessem lugar naquele trono hipotético. Isso aconteceria apenas quando a saúde não permitisse mais aos monarcas acompanharem as andanças do cortejo pelo arraial. O casal real trazia sobre a cabeça coroas feitas em folhas de flandres. Eles ficavam coroados durante todo o período da festa.

Também havia os reis que eram festeiros no ano. Esses festeiros também gozavam de certas mordomias no desfile. Sombrinhas para proteção do sol e um lugar de destaque junto com os cantadores. Os festeiros não usavam os uniformes dos demais. Eles seriam os responsáveis por organizarem almoço ou jantar a todos os que acompanhavam o cortejo. Eles recebiam doações de gêneros alimentícios para tal. O restante eram patrocinados por eles.

Na sequência da organização do cortejo, vinham os dançadores. Puxando as alas viriam os mais experientes e capazes de improvisação de passos novos e gingados diferentes. Depois viriam os demais, seguindo os líderes nas duas alas que se formavam, circundando o desfile real. Destacava-se mais aqueles ou aquela dançarina capaz de criar passos inovadores e que trouxessem os adereços mais sofisticados e coloridos.

Desses adereços fazia parte também um aparato de mão. Um galho de árvore especialmente escolhido e enfeitado, trazendo no alto dos finos galhos rosas de folhas em papel. Quanto mais colorido melhor. Muitas fitas caiam da ponta desses galhos, dando um visual muito interessante e alegre ao conjunto dos dançadores.

Por muitos anos afora essa tradição cultural ocupava a preferência dos moradores do lugar. Contudo, o passar dos tempos determinou que tal comemoração fosse perdendo espaço e durante algum tempo ficasse esquecido. Passado décadas, alguns interessados em manter tal tradição, ajudados pelo poder público municipal, fomentaram o retorno daquela maravilha cultural herdada das senzalas dos idos tempos de arraial. E hoje um grupo ainda não tão numeroso como antes, mantém vivo com muito esforço todo o cerimonial que foi o primeiro que se tem notícia em território lagoense.

É novamente hora de ouvir o rufar dos tambores e o som frenético do xique xique e da sanfona. É hora de ouvir o capitão repentista e sua poesia simples porém cheia de graça e de harmonia. É hora de reviver aquele momento mágico dos moçambiqueiros desfilando pelas ruas da cidade. E tal qual ocorria séculos atrás o ritual se repetirá. E um novo momento de fé testemunhará a nós a crendice de um povo, que venceu o tempo e que tenta a duras penas, sobreviver à modernidade tão conturbada de nossos dias.

É outubro, é N.S. do Rosário, são os moçambiqueiros desfilando para nossos olhares curiosos e muitas vezes impiedosamente críticos.

Um viva à memória de Dona Doca, do Cijano, do Valdemar da Ana Zeca, do Evandro do Adélia e de muitos outros que trabalharam muito para que essa tradição se mantivesse até os nossos dias.

Viva também àqueles que hoje dirigem o grupo dos moçambiqueiros e aos padres da igreja católica aqui residentes, que abriram espaço para essa importante manifestação na festa da Senhora do Rosário.

Que bom que ainda existem essas manifestações.

Até a próxima.