Descobrindo a identidade de um povo festas populares – Coluna Célio Fonseca

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Estamos nos aproximando de um momento bastante importante na cultura popular de nosso povo, que é justamente a celebração de duas festas bem populares em nosso meio: as festas juninas e as folias de reis.

As festas juninas têm um lugar muito especial na nossa cultura, pois “valorizam elementos históricos e religiosos. Ela surgiu na transição da idade antiga para a idade média, e surgiu como um culto a um deus pagão chamado Adônis. O culto a esse deus na Europa tinha por objetivo a celebração da renovação, do renascer na natureza e era celebrada no dia 24 de junho. Essa ideia foi assimilada pelo cristianismo que substituiu Adônis por São João Batista, que foi o  anunciador da vinda de Jesus Cristo que renovaria todas as coisas”.

Em Lagoa Formosa, a tradição das festas juninas vieram na bagagem dos primeiros aventureiros que se instalaram em território lagoense, estruturando a primeira fazenda no lugar. É uma das festas mais antigas que se tem notícia na nossa região, disputando o status de ser a primeira justamente com a festa de Santos Reis.

Nos primeiros anos a festa junina não tinha o glamour dos tempos atuais, já que hoje muito da tradição tem sido substituído pela modernidade, descaracterizando  um pouco o acontecimento. A princípio, a festa ocorria em torno de uma farta fogueira, artisticamente preparada em forma de pirâmide. Quanto mais alta fosse ela e quanto mais preparada fosse a madeira usada, mais sucesso e fama identificariam o dono da casa que promovia a festa. A fogueira era fator preponderante na festa por que, conforme tradição antiga, o dia 24 de junho era um dos mais frios do ano e para tranquilidade dos festeiros, era necessário esse aparato para aquecer a noite fria. A bebida a ser servida era o quentão, uma mistura de aguardente com água e canela em cavaco, que era servido bem quente, após um tempo em fervura nos fogões a lenha. Em algumas fazendas outros “condimentos” eram acrescidos a essa mistura para realçar este ou aquele sabor, conforme preferência do fazendeiro. A comida era de esmerado bom gosto. Doce de amendoim inteiro com rapadura, chamado pé de moleque, amendoim torrado, pipoca, biscoito de polvilho assado no forno em forma de iglu que havia nos quintais de todas as fazendas e outras quitandas caseiras a gosto da fazenda que promovia a festa.

É importante notarmos que tudo aquilo que era servido nesta festa junina, era produzido na própria fazenda. A farta e diversificada colheita aliada à dificuldade de acesso a produtos industrializados, contribuiu para que tal festa fosse identificada pela singeleza. Tudo que era servido saia da própria fazenda, inclusive a aguardente muitas vezes produzidas artesanalmente nos alambiques de fundo de quintal comuns em muitas delas. Originalmente tudo o que era usado nas festas juninas deveriam ser produzidos no lugar.

O objetivo da festa guardava muito daquilo que foi originalmente o motivador de sua idealização. No hemisfério sul esse tempo é marcado por uma aparente descaracterização da natureza, ressentida da falta de chuva e das baixas temperaturas do clima da época. Os louvores ao padroeiro da festa era um agradecimento pela colheita armazenada recentemente e uma prece para que a natureza se renovasse logo que se iniciasse um novo ciclo nas atividades laborais das fazendas. Por isso era obrigatória o momento religioso da festa, com as preces e louvação a Sâo João Batista. Durante todas as festividades, o estandarte com a efigie do padroeiro deveria reinar soberano lá do alto da haste de bambu, toda enfeitada com limões “baeta”, como se vigiasse os acontecimentos ao redor do farto lúmen da fogueira que ardia.

Contavam os mais antigos de nosso município que as primeiras quadrilhas foram marcadas ao som das mãos que marcavam o compasso, adornado pelo ruído dos calçados em couro cru em contato com o chão. O primeiro instrumento usado diziam os antigos, foi uma viola ou um violão trazidos pelos tropeiros. A sanfona apareceu algum tempo depois e fez a festa ter um outro colorido.

Durante essas festas juninas eram realizados o batismo de fogueira, uma cerimônia não católica  que, segundo a tradição, visava proteger o batizado contra a ação do fogo pois seria dali em diante, especialmente protegido por São João. Quem recebesse o batizado de fogueira jamais morreria queimado, diziam os antigos.

O tempo foi passando e muito foi acrescentado a essa festa e, na maioria das vezes, descaracterizando esse forte acontecimento cultural que celebrava a fartura das despensas e dos paióis das nossas propriedades rurais.

A outra festa popular celebrada nesse meio de ano, reverencia a figura dos Reis Magos personagens bíblicos que partiram em jornada à procura de Jesus Cristo, o  Messias recém nascido.

A folia de Reis ou reisado ou ainda festa de Santos Reis é uma manifestação cultural religiosa festiva bastante comum no folclore brasileiro e bastante difundida em nossa região e de forma especial em Lagoa Formosa. Também esta veio na bagagem dos primeiros aventureiros que se instalaram em território lagoense. Em solo brasileiro essa festa  seguia, nos primeiros tempos, a dinâmica herdada da europa. Ela foi sendo difundida para o interior brasileiro, ganhando um ou outro adereço que a tornaria dentro em pouco, um evento com características tupiniquim.

Em nosso município essa festa chegou de forma modesta e era realizada dentro das limitações que eram permitidas a uma fazenda distante de grandes centros. Durante muitos anos ela tinha um caráter familiar talvez pela distância entre uma fazenda e outra e a dificuldade de locomoção entre elas nas poucas trilhas sulcadas no chão virgem. Não durou muito e a vizinhança já estaria devidamente integrada participando de uma festa aqui e outra ali. Neste tempo os foliões seguiam personagens caracterizados com toda a indumentária dos reis magos, que iam de uma a outra fazenda narrando através de cantos específicos a aventura dos reis magos na procura do Messias recém nascido. Havia uma residência previamente marcada para a saída da folia e outra para a chegada em cada dia. Geralmente a festa durava até uma semana entre a saída e a chegada. Na saída havia a encenação com os personagens caracterizados, o canto da folia, doação de prendas. A cada doação, o capitão da folia criava um verso de agradecimento. Depois cantava-se em agradecimento ao anfitrião, rezava-se o terço e depois era hora da comida que era bem simples, porém sempre  farta e de muito bom gosto. Antes de ser dada a permissão para que todos se servissem, os foliões cantavam em torno da mesa pedindo a bênção para o alimento ali colocado e para aqueles que o prepararam. O restante do dia era reservado para festa.

Na tardinha dos dias seguintes, o cortejo saia em procissão passando por uma e outra propriedade, onde geralmente servia-se café com biscoito aos que acompanhavam os foliões e os artistas vestidos de reis magos. Assim ocorria durante toda a semana, sendo a visita a cada dia em residências diferentes dos agregados de cada fazenda existente. No domingo seguinte era dia da entrega da folia, quando todo o ritual era repetido, mas desta vez em outra propriedade. E assim acontecia a festa de reis, regada a muita alegria, muita harmonia, orações e louvores a esses santos católicos que congregam uma plêiade de devotos em todo território brasileiro.

A festa de reis tem sempre os festeiros, que tem a obrigação de promoverem a edição do ano seguinte. Eles recebem coroas que os identificam. Em muitos casos, essa monarquia obedece as tradições de países europeus e passam de pais para filhos ou parentes próximos, ficando sempre na mesma família. Embora nos dias de hoje essa função tenha perdido muito status em relação ao que se via nos tempos das grandes fazendas do município, ainda guarda certo glamour. Rei e Rainha da festa desfilam no meio da multidão ostentando orgulhosamente o adorno real que lhe foram concedido.

Essa festa de reis cresceu com a modernidade e hoje guarda apenas algumas das características principais que a marcaram originariamente. Entende-se perfeitamente a adequação do ritual da festa aos dias atuais. Contudo, o que se estranha e lamenta-se é que todo o motivo da festa, que é justamente a “homenagem” ao ato de os reis magos vencerem a distância e a dificuldade para encontrar o menino Deus, esteja ficando esquecido. Milhares de pessoas comparecem ao encerramento da festividade, mas no momento da oração e do canto da folia, que teoricamente seria o ápice daquele dia, apenas uma meia dúzia de pessoas ou pouco mais, além dos cantores da folia estão presentes. A grande maioria está por ali, espalhada pela propriedade rural, entregue a uma orgia social regada a bebida e comida com fartura.

É incrível como esta festa em nossa região virou até um meio de competição. Um festeiro quer promover algo maior que seu antecessor e dessa forma, as coisas vão tomando um outro rumo, infelizmente. E das tradições que fizeram esta festa vencer o tempo e sobreviver ate os nossos dias, pouco resta. Mas ainda bem que resta algo, pelo menos.

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