DESCOBRINDO A IDENTIDADE DE UM POVO, OS RETIROS – COLUNA CÉLIO FONSECA

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Grandes fatos que interferiram diretamente na formação cultural e social do povo de Lagoa Formosa estão ligados a religiões. O clã formado nas grandes fazendas criava uma sociedade rígida, conservadora e inatingível por toda e qualquer pretensão de quebrar a estrutura formada em torno das ordens e orientações dos coronéis. Poucos eram aqueles que se atreviam a questionar um ou outro posicionamento de um coronel, mesmo que evidenciasse uma agressão ao livre arbítrio. Palavra de coronel era lei.

Essa estrutura assim definida perdurou por décadas afim. Não se conhecia um outro modelo de vida e nem era possível imaginar que alguém se atrevesse a questionar as decisões ou opiniões de um daqueles muitos coronéis.  Finalmente foi possível haver nestas formosas terras um sacerdote residente. O religioso, devidamente preparado para situações peculiares a qualquer arraial, tratava com esmerado cuidado cada fato. Os sermões, segundo contam, mostravam a necessidade do respeito à pessoa humana e visava mostrar a figura de Jesus  Salvador, refúgio das almas inquietas. Aos poucos e seguindo quem sabe as divinas inspirações, aos poucos salientavam um ou outro ponto da vida social, mesmo contrariando a opinião dos arcaicos coronéis que desejavam que os padres se ativessem exclusivamente à exposições  de cunho espiritual. Contam-se até que muitas recomendações e até algumas ameaças foram feitas aos religiosos que do púlpito mandavam vez por outra algumas indiretas aos coronéis.

Num belo dia a inspiração divina fez com que um  sacerdote residente aqui, o Padre Alair, tivesse a idéia de fazer acontecer em Lagoa Formosa os retiros espirituais, visando a formação dos cidadãos  locais. Tais encontros aconteciam em outras localidades com bastante êxito. Esses retiros eram encontros em que as pessoas  ficavam reunidas  em determinado local, onde eram proferidas palestras, eram dirigidas orações e pessoas devidamente preparadas conduziam os participantes  a reflexões  que levassem a um posicionamento. Esses retiros não visavam a quebra imediata daquela estrutura montada em torno das famílias e vivida de conformidade com os ditames dos coronéis. Ninguém era atrevido o bastante para afrontar a regulamentação ditada décadas atrás e que era seguida rigidamente pelos filhos, netos etc dos primeiros coronéis do lugar. Seria talvez um atentado à própria vida apresentar uma alternativa ao regime de vida de então. Muitos desses retiros foram realizados já que aconteciam anualmente nas dependência do então grupo escolar, hoje Escola Estadual Coronel Cristiano.

O objetivo maior dos retiros era de cunho espiritual. Os organizadores  sabiam por experiência que era possível dar segurança, paz interior e tranquilidade aos jovens acostumados até então a obedecerem as cartilhas dos grandes coronéis e aos ditames das famílias muito fechadas e resistentes a qualquer  mudança nessa estrutura. Além de tudo, a missão do pastor de almas acreditava que os retiros poderiam trazer maturidade espiritual e maior proximidade com o criador, a religião e a igreja, caminho indispensável para se estruturar uma família e uma sociedade.  Uma coisa motivaria outra. A formação espiritual induziria a sociedade, através da força jovem, a alterarem o particular DNA imutável desde a chegada dos primeiros fazendeiros.

Os padres, conhecedores da situação local, coordenaram a instalação desses retiros, a princípio apenas para jovens solteiros. Os casados não seriam convidados a princípio. Tal decisão se baseava  primeiramente  no fato de que seria quase impossível conseguir levar para o retiro um daqueles homens fortes das grandes fazendas. Depois seria de bom alvitre investir no poder de transformação que estava encubado nos ideais e sonhos da juventude. Eles poderiam mudar o pensamento e, num futuro não muito distante, promoverem  progressos sociais e culturais pois seriam em breve, pessoas de voz ativa e até líderes dos muitos homens e mulheres que trabalhavam nas fazendas e viviam no arraial.

Geralmente os retiros duravam  da noite da sexta feira à tarde do sábado. Lá se vivia uma intensa programação  meticulosamente preparada para se atingir os objetivos propostos. Tudo à luz das orações, da reza do terço seguindo as orientações passadas  por ocasião das visitas dos frades missionários que defendiam em nome do pedido da Virgem Maria em Fátima, Portugal, a recitação dessa devoção. O regime de reclusão dava um sentido muito especial ao  momento e era rigorosamente observado. Ninguém saia do local do encontro antes do término previsto. A isso, acrescentava-se  palestras  esmeradas  na formação de conceitos morais e culturais. O próprio sacerdote se encarregaria daquelas consideradas principais. Alguns homens e mulheres da sociedade, com verbalização fácil, eram convidados a usarem a palavra e auxiliarem nas pregações. O dia terminaria com a celebração eucarística. Muitos daqueles jovens pela primeira vez poderiam participar dessas celebrações de maneira mais ativa visto que, além de poucas, as missas eram  muito frequentada lotando as dependências da capela local dificultando a participação.

A estrutura do retiro dos congregados era a mesma do retiro das filhas de Maria. Além do sacerdote, nenhum outro homem poderia participar no retiro das mulheres. Da mesma forma era restrita também a participação de mulheres  no encontro dos rapazes.

Para que se fundamentasse a realização desses retiros, aproveitou-se  dos “movimentos” importantes existentes  na igreja local: Os Congregados Marianos e as Filhas de Maria. Ambos eram  um ninfa dos movimentos que até os dias de hoje existem em nossa paróquia. O grupo “congregados” era formado por rapazes que se reuniam semanalmente ou quinzenalmente conforme a ocasião, para ouvirem palestras, recomendações e fazerem orações. Saliente-se o fato de que no início de tais movimentos, a resistência foi enorme tanto por parte dos jovens participantes como de seus pais.

Da mesma forma, havia também o “Filhas de Maria” que congregava moças. O objetivo era o mesmo. Foi exatamente nesses dois grupos que se buscou  pessoas para participação nos retiros. Não fosse esses dois grupos, certamente não se conseguiria número satisfatório de participantes nos retiros.

A concentração dos participantes nos três dias, a constante oração e as palestras meticulosamente preparadas, promoveram transformações visíveis naquele povo.  E o resultado desses encontros então foram surpreendentemente  positivos.

Os testemunhos dos participantes,  amplamente comentados na sociedade, eram muito interessantes  e incentivavam  quem não conhecia a dinâmica do retiro a procurar participar.

O objetivo pretendido com tais retiros era atingido lentamente. Era um trabalho que certamente iria render os frutos desejados depois de muitos anos. Mas deu frutos e foi importante na formação cultural e social de nosso povo. Mudou-se a forma de pensar e agir de muita gente. Formou-se a convicção de que havia uma forma alternativa ao arcaico pensamento e ao modo de vida de então.

A princípio, os jovens participantes dos retiros criaram entre si um grande laço de amizade e de cumplicidade dado à forma uniforme de pensar e agir. Esse intercâmbio afetivo criou laços fortes de amizades e motivou os primeiros movimentos de reação ao que culturalmente se vivia.

Os Coronéis como era de se esperar, não viam com bons olhos essa clausura de 3 dias. Eles sabiam que isso poderia revolucionar o pensamento dos mais jovens. Mas os sacerdotes tinham acesso livre e grande amizade com os coronéis.  Os conselhos do religioso eram sempre ouvidos e respeitados. Alguns desses coronéis chegaram a pedir, mas em vão,  que os padres a não realizassem esses retiros. Os religiosos contudo, contavam com o apoio de muitos cidadãos locais que reconheciam o valor e a necessidade desses momentos de oração e de formação.

Pouco a pouco, todos os jovens tanto homens como mulheres estariam participando desse importante  retiro. E aí foram sendo disseminados conceitos que iriam mudar radicalmente a forma de viver e pensar daquele povo.

Os frutos desses momentos de formação vinham lentamente e de forma concomitante ao manifesto desejo de mudança por parte dos jovens de então. As ideias  de uma nova sociedade, de liberdade, compromisso, responsabilidade e segurança interior foram bem assimiladas. Tudo isso aliado à forte conversão espiritual através dos retiros, formaram o antídoto ideal  para o “status quo” que contradizia os anseios daqueles jovens rapazes e moças.

A resistência de muitos chefes de família era muito grande. Esses tratavam os jovens de revolucionários e diziam temer pelo futuro quando eles estivessem à frente de suas famílias e dirigindo os destinos social e político da região. Mas nada fora empecilho para que se estabelecesse novos princípios para a sociedade que viria a seguir.

Sem dúvida esses retiros participaram efetivamente da nossa história, formando consciência e traçando diretrizes que refletem em nossos dias. Talvez, não fosse a audácia e o comprometimento dos padres com seus votos religiosos, poderíamos viver uma outra realidade em nossa sociedade. E não sabemos, mas talvez se assim o fosse, não seríamos o que somos e não sonharíamos com o futuro que certamente nos espera.

Um viva coragem e compromisso daqueles padres. Eles acabaram por dotar o DNA do povo de Lagoa Formosa de genes de paz, de compromisso e de fraternidade. Viva !!!!