Descobrindo a identidadede de um povo – COLUNA CÉLIO FONSECA

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Vamos retomar nosso enfoque a respeito da formação da identidade cultural de Lagoa Formosa, conforme proposta desta coluna.

Muitos são os fatos constantes da história desse município que determinaram a consolidação de costumes do povo. Ainda hoje, em pleno modernismo de uma sociedade marcada pelo avanço da tecnologia, vemos os traços de identidade que herdamos dos idos tempos de nossa formação social. O fato é que somos um povo adaptado aos tempos atuais sem, contudo, conseguir camuflar o caráter cultural  impingido pelos nossos antepassados num tempo não tanto remoto. A partir daqui, vamos enfocar acontecimentos da história que contribuíram para essa formação cultural e social.

Estamos nos idos tempo da colonização de nosso município. Nenhum fato diferente daqueles muitos acontecidos em outras localidades de nossa região quanto à aventura da colonização. Mas nesse tempo, o grande marco para a formação da identidade cultural lagoense foi o alto espírito religioso implantado pelos primeiros moradores. As primeiras famílias que aqui aportaram, pelos relatos verbais que atravessaram o tempo, eram extremamente religiosas e tementes a Deus. Cultuar os santos de devoção e ouvir respeitosas, eram práticas obrigatórias a todos.

A seu modo, cada família criava ocasiões específicas para manifestações religiosas. Na bagagem dos primeiros fazendeiros, estavam imagens dos santos de sua devoção, assim como orações devocionais e um costume inabalável do culto a Deus. Normalmente era primazia feminina manter acesa a chama de espiritualidade. Os senhores coronéis não eram muito afeiçoados à prática religiosa, muito embora nos momentos de dificuldade na lida diária, não dispensassem uma ajuda extra de Deus.

Nas grandes fazendas era obrigação um pequeno altar e uma imagem do santo de devoção. Sempre havia uma senhora mais velha, que era incumbida de puxar as rezas, de interceder a Deus para este ou aquele com orações intermináveis que ela aprendera com os seus antepassados. Havia orações decoradas, em poesia ou versos, com palavras que ninguém conhecia. Essas anciãs eram peritas na repetição das palavras. Também elas sempre arriscavam um pequeno sermão em certas ocasiões. E todos os presentes ouviam com inigualável atenção e respeito. As velhinhas eram conselheiras das famílias, e mesmo sem dominar a psicologia ou a oratória, pregavam virtudes que o tempo lhes ensinara pela experiência de vida. Tudo girava em torno da prática do bem e da observância da religião. Isso era sagrado para o povo daquele tempo.31

Essa religiosidade vinda com os colonizadores foi o primeiro grande fato a determinar nossa identidade cultural. Nossa gente cresceu à luz dessa fé, o que motivou muitas gerações no apego aquilo que é sagrado.

No princípio eram manifestações modestas e domésticas. Nas grandes fazenda haviam momentos celebrativos específicos  para homenagear este ou aquele santo. Cada família tinha sua particular devoção. No dia em que o calendário católico rememorava ao santo de devoção da família, as atividades eram diferentes. Neste dia era na propriedade, um dia santo. Nenhuma atividade fora do trivial poderia ser realizada. A ordenha, o zelo com os animais domésticos e nada mais seria feito. Mas não bastava apenas guardar o dia santo. Todos os peões e membros da família eram convidados para uma ação conjunta em honra ao santo do dia. Normalmente no principio da noite todos se reunião no salão da sede da fazenda ou até em uma área externa devidamente preparada, para orações e culto ao santo. Quem dirigia o ato era a senhora dona da fazenda. Neste tempo, orações era coisa prá mulher. Os homens participavam discretamente, sussurrando as respostas contidas na reza, mas sem muito alarde. Alguns, radicais machões, não ficavam junto aos demais. Eles chegavam e ficavam por ali, procurando certa distância do improvisado altar preparado pela dona da casa. Normalmente uma mesa bem forrada,,  uma jarra com flores naturais e um quadro ou uma imagem do santo do dia. Era interessante que os homens mais velhos não admitiam participação ativa nesses atos. Contudo, ficavampor perto acompanhando tudo. Eles eram valentes e fortes mas cultuavam um medo terrível do castigo do santo para sua indiferença às ações. Ficavam por ali por medo da vingança dos santos.

As mulheres dirigiam a reza, cantavam, tudo seguindo os manuais impressos trazidos das cidades maiores. Uns pequenos livros de capa preta, com letras miúdas em folhas amareladas, traziam um roteiro prévio. Muitas vezes algumas senhoras semi alfabetizadas seguram o manual mas improvisavam muitas orações de conformidade com a necessidade da hora.

O momento de celebração em memória do santo, era festivo e deveria culminar com uma bela comemoração. Dependendo da quantidade de peões da fazenda e do número de familiares, a parte festiva seria dispendiosa. Para isso, durante o dia, eram preparadas quitandas das mais variadas e quitutes especiais para a ocasião. Depois da reza a festa corria solta. Café bem quentinho e forte, leite quente adoçado com rapadura e chá acompanhavam os comestíveis. Todo mundo se fartava de um variado cardápio especialmente preparado.

3d2d92f917520d61027c98675b9951e7_EEsse momento de fé e de alegria era muito importante. A primeira parte influenciava muito na formação religiosa do povo. Culto a Deus era obrigação que nenhum outro compromisso poderia encobrir. Respeito aos santos era cultuado como algo primordial para a tranquilidade espiritual da família. Essa devoção era tamanha que geralmente na sala de visita de todas as fazendas, havia um quadro enorme onde deveria estar estampada a imagem do santo da família. E todo mundo que adentrasse aquela residência, ao passar defronte o quadro, deveria fazer uma reverência. Isso era obrigação.

Esse respeito ao santo devocional criou na sociedade daquele tempo, um elo forte entre aquilo que é espiritual e o comportamento social. Esses atos de fé motivaram esse comportamento mais ameno e menos grosseiro. É bem verdade que havia uma idéia meio arcaica dessa relação com Deus e os seus santos. Os homens tinham medo do castigo divino e por isso recuavam muitas vezes quando a ignorância o impelia a praticar atos nada burocráticos. A maioria dos senhores das fazendas temiam a vingança dos santos. Por isso faziam questão que as festas domésticas em honra a este ou aquele santo fossem realizadas. E até admitiam patrocinar tudo.

Por um lado, o culto a Deus mantinha entre o povo a idéia de um ser superior, autor da vida, ao qual deveria se submeter toda a vontade humana, mesmo a contragosto de alguns coronéis de cabeça dura e rude.

Por outro, o momento social era igualmente importante. Ao redor da mesa farta, as pessoas se reuniam, trocavam idéias, colocavam os assuntos em dia. A propósito, em dias normais de serviço, não era possível parar muito para conversar, criando um aparato forte na convivência do povo. O homem é um ser social e como tal exige esse momento social.

A princípio, as celebrações religiosas aconteciam nas fazendas, mesmo porque não havia ainda um aglomerado social que permitisse as reuniões. Também as poucas fazendas ficavam muito distante uma da outra. Cada fazenda realizava a festa do seu santo.

003As festas mais tradicionais nos primeiros tempos eram para homenagear Sâo João, Santos Reis e as festas natalinas. A primeira era de muita tradição em outros centros e por isso vieram com os colonizadores. Era festa de muita alegria, muita fartura de comida e bebida. Os peões gostavam muito do evento pois poderiam degustar uma boa aguardente, o que eles tanto apreciavam, sem nenhum constrangimento com a presença do patrão que também bebia uma ou outra, em nome do santo homenageado. Já a festa de reis, desde os primórdios dos tempos era grandiosa e representava o grande momento social daqueles primeiros anos. (cf livro Fagulhas de Histórias não contadas)

Essas celebrações domésticas tiveram um papel muito importante naqueles primeiros tempos de instalação das fazendas. Mesmo sem consideráveis índices, tais atos amainavam um pouco a rudeza na forma de pensar e agir de então. Era preciso algo ou alguém que pudesse se contrapor às idéias dos senhores da época. Mesmo sendo na maioria das vezes por medo do castigo, esse “respeito” aos santos foi muito importante.

Era impressionante como esse “medo” de Deus ou dos santos influenciavam no dia a dia das famílias colonizadoras. A morte de um animal doméstico qualquer, a perda de uma rês ou de um suíno quase no ponto de abate, era tido como uma retaliação a uma ação qualquer feita pelo fazendeiro ou alguém de sua família. A consciência acusava sempre uma resposta a um ato pouco peculiarque rompia as regras naturais da ética e do comportamento.

Podemos dizer que herdamos dos nossos antepassados, um espírito religioso conservador, de homens e mulheres praticantes das regras religiosas, em nome do sucesso, da felicidade e da boa convivência com os companheiros desbravadores dos sertões das minas gerais e até para “estarem de bem” com o criador.

Algumas famílias eram extremamente conservadoras no que tange à religião. Certos atos e forma de vida chegavam à beira do fanatismo. As regras da religião eram seguidas cegamente. De certa forma isso trouxe muitos benefícios à formação da identidade do povo da época, porque permitia a convivência fraterna e a prática da caridade e de outras virtudes, para merecer as benesses do céu. Em um tempo de coronéis, de batalhas por posse de terra, de jagunços e de peões, a religiosidade era o porto seguro para que se conseguisse a sobrevivência de famílias estruturadas e de observações de conceitos estranhos à muitos outros campos de povoação no interior dos estados brasileiros. Era obrigação o culto religioso.

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O espírito religioso trazido pelos colonizadores foi o primeiro grande fator que influenciou diretamente na formação do DNA social e cultural do povo de Lagoa Formosa. As práticas e crenças religiosas marcaram esse tempo das grandes fazendas e perduraram na formação do arraial e até os nossos dias. Podemos dizer que esse gene passou a constituir o mapeamento genético de um povo que caminha na modernidade, trazendo no âmago de si essa qualidade inegável do culto a Deus e da crença nos preceitos celestes. Talvez esse seja um dos segredos para que se constituísse uma geração saudável e confiante, como aquela que Lagoa Formosa nos apresenta hoje.

Um abraço a todos…Até a próxima.

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