EDUCADORES E FERREIROS- Coluna Valmir Ferreira

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Uma antiga profissão que ainda subsiste em remotos ermos na vastidão do Brasil é a do ferreiro. Este curioso interiorano costuma ser, de praxe, taciturno e imparcial: o seu diálogo com o cavaleiro resume-se em monossílabos e acenos de cabeça, pouco além de uma saudação, o acerto do preço do serviço e uma breve despedida. A sua imparcialidade consiste principalmente em tratar os animais ordinariamente do mesmo modo. Para fixar a ferradura no casco sem que o animal se assuste ou se machuque, o ferreiro bate alternadamente com o martelo ora no cravo, ora na ferradura. Essa prática, aparentemente simplória, traz uma excelente lição que pode (e deveria!) ser aplicada no caso das políticas públicas para a educação.

 Até a década de 1990 as escolas públicas de educação básica funcionavam em 180 dias letivos, sendo o restante do ano distribuído em férias, recessos e feriados. Já na segunda metade da década de 1990, a Lei 9394/96 (Lei das Diretrizes e Bases da Educação Nacional) determinou em seu artigo 24 que a carga horária da educação básica passaria a ser de 800 horas, distribuídas em 200 dias letivos. Desta constatação verifica-se que o legislador preocupou-se em aumentar a carga horária dos alunos, na expectativa de alcançar reflexos nos resultados da aprendizagem.

Contudo, passados quase vinte anos da publicação da LDB, parece que a qualidade de ensino decresceu! A aprendizagem efetiva nos bancos escolares nas últimas décadas tem sido inversamente proporcional ao aumento da carga horária. Se antes os alunos tinham tempo para descansar nas prolongadas férias de julho, dezembro e janeiro, agora o fazem nas salas de aula: quem conhece a rotina escolar sabe que não é raro encontrar alunos dormindo debruçados sobre as carteiras ou em posição de completo relaxamento enquanto o professor esboroa uma infinita ladainha de equações, fórmulas e sintaxes.

Cabe aqui um questionamento que envolve a prática docente e o interesse dos alunos: por que será que os resultados auferidos pelas avaliações externas têm revelado vertiginosa queda na qualidade do ensino? As razões são múltiplas, porém uma delas deveria merecer maior atenção dos profissionais e dos gestores da educação no Brasil – o preparo e o compromisso do educador.

A verdade, ainda que inquietante, é que em muitos casos o professor não está devidamente preparado para a prática docente nesta era digital. Preso às raízes da pedagogia tradicional, o professor ainda acredita que bastam os livros, o quadro e o giz para que o aluno “preste atenção” às aulas. E mais grave ainda: acredita que o aluno está aprendendo quando está quieto. Com enorme fardo de trabalho (geralmente com dois cargos) o professor não encontra tempo para aprimorar seus conhecimentos e melhorar a prática docente nem tem interesse em fazê-lo, alegando que não seria valorizado por ser mais preparado.

A questão do compromisso é ainda mais preocupante: se podemos taxar de descompromissado o aluno que dorme ou se diverte durante as aulas, o que dizer do professor que permanece inerte diante da situação? Poderíamos considerar compromissado com o ensino um profissional que não alcança os alunos? E mais: ignorar a apatia, fingir que não percebe o aluno distante e passar adiante afirmando tacitamente que “o problema não é meu” não é apenas despreparo, é descaso, desleixo e abandono dos princípios éticos que deveriam nortear a atuação de um educador.

É absolutamente ineficaz ampliar o tempo de permanência do aluno na escola, como é insensato pretender que ele aprenda quando o professor permanece desinteressado, passando ao largo das questões disciplinares, cognitivas e pedagógicas que influem na aprendizagem. Antes de se elaborarem políticas públicas para a melhoria do ensino é necessário e urgente que se invista na formação, no bem estar e no preparo do educador.

Certamente a atitude serena e imparcial de um ferreiro, no desempenho de um mister bem mais simples do que ensinar, pode ser enormemente fecunda em lições para nós educadores: seria cômodo demais atribuir ao aluno a responsabilidade pelo fracasso escolar, mormente quando a tarefa de organizar, planejar, instruir, ensinar e avaliar não é dele. É preciso que as marteladas sejam compassadas e precisas: uma é no cravo, a outra… na ferradura!