HISTÓRIAS NÃO CONTADAS ? – Coluna Célio Fonseca

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Finalmente chegou o dia… Finalmente vamos conhecer algumas histórias que não nos foram contadas. Chegou o dia do lançamento do nosso “Fagulhas de Histórias não contadas” para compor acervo da rica história de Lagoa Formosa e sua gente.

Era um dia como os outros. Assim como na maioria deles, lá estávamos perdidos entre números e equações, revirando aquela dezena de livros espalhados sobre a mesa que nunca se mantinha organizada, buscando teoremas, vasculhando fórmulas e rabiscando sinais e algarismos em profusão. Aqui o conteúdo, ali as questões e aos poucos íamos inebriando a memória e massageando o conhecimento. Afinal, o zelo pelo trabalho é combustível para desvendar proposições e enigmas.

Os números pareciam viajar daqui para ali. Não eram poucos os  momentos em que  essas viagens nos convidava ao embalo do passeio. E logo, tendo à boca a caneta  levemente mordida naquela tampa azul, era possível voar  sobre aquele monte de livros de matemática e fixar pensamento em outras preposições: a arte, a música ou história, nossas outras paixões. Não fora possível resistir a tentação de deixar tudo aquilo ali na mesa, como, aliás, é o nosso costume, e pegar os caminhos poentos e selvagens da nossa história. Rapidamente, estávamos desengavetando um monte de papel manuscrito, amarelados e amassados de tanto serem manuseados. Um olhar rápido e logo  estaríamos ao computador onde passeavam símbolos voando pela tela, indo e vindo cansativamente, já que apenas assistia a tudo inerte no canto da biblioteca.

Era inacreditável, mas camuflado entre números e variáveis, havia um registro muito importante de fatos e casos de uma história de um povo. Daqueles apontamentos manuscritos, iam germinando as informações que foram colhidas cadenciadamente no dia a dia da pesquisa e do papo despretensioso deste professor com este ou aquele cidadão ou cidadã que confidenciavam fatos muito interessantes.

E de repente lá estávamos imaginando um acontecimento, depois outro, juntando esta informação à outra e a história tinha finalmente um sentido lógico. Um calafrio repentino interpelava-nos pelo fato de lembrarmos que centenas de histórias foram sepultadas com aqueles que as viveram. Quantos acontecimentos não nos foram revelados pois seus conhecedores se foram  e levaram com eles aquilo que só eles sabiam. Então era preciso urgentemente registrar tudo pois o tempo não espera e o amanhã pode não nos dar a oportunidade de lembrarmos aquilo que ainda povoa uma memória castigada pelos números além de infindáveis fórmulas da matemática.

E são tantas histórias! Muitas coisas que aconteceram sem levantarem curiosidade e sem ganharem notoriedade comum nos dias de hoje, no “zap zap” e “face” da vida. Aventuras épicas na conquista do sertão, na instalação das fazendas na região, o desenvolvimento social e cultural de uma geração que vivia quase que exclusivamente para o trabalho. Tudo estava se perdendo no tempo, deixado para trás no corre corre da vida. E a geração futura não poderia conhecer a coragem e bravura de seus antepassados. E não era preciso ir tão longe assim. Nossa juventude hoje, 2015, não sabe ter orgulho daqueles que “arrebentaram” mãos e se enlamearam em suor e poeira para que se instalasse uma cidade para um povo. E como cobrar de nossa geração esse grito ufanista se ele não conhece a história ? E muitos  ignoravam o labor de seus antepassados e a luta até insana pela sobrevivência. Parece mesmo que para a geração atual, nossa história pode ter surgido por um passe de mágica e não há do que se orgulhar.

Infâmia desconhecer que estradas foram talhadas a enxadão… Injustiça não saber que as parteiras ajudaram vidas, que os raizeiros da roça salvaram crianças, jovens e adultos, longe de maternidades ou hospitais… Que fortes peões lavraram a terra com os arados e plantadeiras manuais, enferrujados pelo uso, surrados enquanto vida útil tivesse, porque não era possível ir tão longe buscar equipamentos. Não se pode ignorar que nossos antepassados se alimentaram de cereais plantados sob o sol escaldante, em covas abertas pela enxada bem amolada, domada pela habilidade daqueles que nasceram convivendo com o manuseio da terra. E os pés descalços e cansados que iam cobrindo carinhosamente com terra, as sementes lançadas ao chão e que gerariam sustento e divisas para uma geração.

Reclamamos um comportamento mais respeitoso da geração atual para com nossos antepassados. Precisamos sim respeitar nossa naturalidade, cujo caminho não se fez da noite para o dia e sim graças a trabalho, coragem, audácia e desejo de edificação de um povo e sua história. Mas como se orgulhar daquilo que não conhecemos? E mesmo sendo uma voz muitas vezes solitária nesse grito, não poderíamos abandonar nossos ideais. Alguém trabalhou muito para que o hoje fosse hoje. Muitos perderam a vida tentando solidificar pensamentos, circunstâncias e implantar uma condição de vida cultural e social.

É necessário então, cientificar ao nosso povo da dificuldade havida para se manter numa região deserta e isolada, ali constituir família mesmo à revelia das dificuldades,  enquanto muitos se esbaldavam nas orgias nobres dos grandes centros. Era muita responsabilidade e consciência de dever, abdicar  do luxo das capitais para se isolar no recanto de um lugarejo distante defendendo a vida e a sobrevivência da família. E não era apenas isso. Era preciso que se edificasse uma cultura social para que um povo, nascido sob a égide da coragem e do amor, pudesse espelhar valores para as vidas que se edificariam na sequência dos tempos. É preciso então que todos conhecessem os moldes da cultura de nossos antepassados, a luta para defender a prole, para dar o conforto desejado a quem por ali estivesse.

Já perceberam como gostamos de festa? Já viram como Lagoa Formosa se esmera na organização e realização das festas? Isso não vem de hoje. Há muitos anos atrás, projetou-se a primeira festa de Reis, a primeira festa de São João além de outras. Isto é histórico e não vem de hoje não. Porque tanta ênfase à festa da Padroeira? Ela foi nossa primeira festa realmente vultuosa socialmente falando. Qual a magia desse evento? Todos precisam estar sabendo  porque somos um “povo festeiro” por natureza.

Precisamos conhecer os muitos acontecimentos que marcaram a revolução social da década de 60 em nosso lugar. O que aconteceu? Como foi? Que revolução causou sendo Lagoa Formosa cenário para uma das grandes produções cinematográfica da antiga companhia Vera Cruz, o “Grande Sertão”. Tudo isso e muito mais são fatos importantes de nossa história. E isso nós precisamos conhecer para nos cientificar de que história não é fruto de truques de mágica ou de ilusionismo.

De tudo isso vinha o vigor bastante para esquecermos por hora os números. Era aquele o momento de registrar a história. Não poderíamos ser comparsas de muitos que conheciam os fatos e deixaram que se perdessem no tempo, como o vento que passa ligeiro sem tempo para confessar segredos que viu e ouviu passando por aqui ou ali.

Muitos detalhes das histórias se perderam porque, maioria delas, foi passada de geração em geração por tradição oral e é claro, alguma coisa se perdeu. Restam-nos fagulhas.

As histórias são ricas e marcadas por muito dinamismo, muita coragem e muito amor pela terra de todos nós. Mas muitas delas não fazem parte do conversar cotidiano nas poucas rodinhas de amigos que ainda têm tempo para conversar. Muitas não são mais contadas e certamente em breve se perderiam no tempo. São essas histórias que resolvemos reunir e publicar em um livro: Fagulhas de histórias não contadas, cujo lançamento será no próximo dia 30 de setembro no Salão Paroquial aqui em Lagoa Formosa.

Nós gostaríamos muito de empenhar nosso esforço no convite para que toda a população lagoense possa prestigiar o evento e acima disso, conhecer as histórias que não foram contadas ainda. Quem sabe, dos muitos acontecimentos lá registrados, está um que foi protagonizado por um parente ou conhecido seu ?

Portanto o nosso objetivo é exatamente despertar esse grito ufanista de amor à Lagoa Formosa e sua gente. Meus irmãos, temos uma história! E para que hoje tivéssemos a bela cidade que temos e  a honradez que faz de cada lagoense probo pela sua formação social e cultural. Conheçam a nossa história… E os muitos fatos que a compõem, farão com que percebamos que amparando a geração de sucesso e de conquistas que somos hoje, está todo um aparato criado e vivido por todos aqueles que, às vezes de forma inconsciente, prepararam um caminho sólido para que nós percorrêssemos. E viva a história de Lagoa Formosa.

Participem conosco, dia 30 no Salão Paroquial. Prestigiam o lançamento de “Fagulhas de histórias não contadas”. Será um prazer para nós.