Descobrindo a identidade de um povo. Arraial e os movimentos religiosos – Coluna Célio Fonseca

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Em torno das grandes fazendas instaladas no que é hoje o município de Lagoa Formosa, criou-se uma estrutura social fundamentada nas tradições que vieram na bagagem dos primeiros homens que aqui chegaram, fazendo dos costumes desse povo, um prolongamento daquilo que se vivia em outras fazendas da região, principalmente aquelas instaladas no interior de São Paulo, de onde acredita-se  ter migrado muitos desbravadores dos sertões mineiros.

Não havia conselhos ou exemplos capazes de pelo menos  aquebrantar a ditadora forma de pensar dos Coronéis das primeiras fazendas.

O arraial criado no curso da história, era o prolongamento da vida social instaladas nessas primeiras fazendas. O regime patriarcal extremamente conservador, temperado pela sociedade machista era o retrato dos primeiros tempos do povoado. Esse quadro prevaleceu por muitos anos, enquanto o intercâmbio cultural e social não havia sido experimentado. Mas o relato de uma ou outra experiência não seria o bastante para motivar a quebra dessa estrutura quase que secular. Isso aliado ao medo do novo, aos ditames dos senhores das fazendas, dominava a vida do lugar, que parecia mesmo se perpetuar naquela vidinha pacata à qual a maioria parecia aceitar de boa.

Um fator que foi preponderante foi a criação do arraial, dos movimentos religiosos. A religião sempre foi para os lugarejos do interior, algo capaz de romper a redoma na qual estavam inseridos  os costumes determinados pelos patriarcas de cada famílias.  Os senhores coronéis respeitavam a religião, temendo possíveis retaliações vindas do céu. Muito embora nem todos fossem adeptos às orações diárias e aos cultos esporádicos no templo, aceitavam as práticas religiosas por parte da família e a presença a esses momentos espirituais.

Os movimentos tinham cunho estritamente religioso e de formação espiritual. As reuniões constituiriam momento forte na vida do povo, que poderia experimentar a vida em comunidade cristã e a partilha em uma comunidade de fé, o que não pode ser sentido no modelo de vida social, mesmo sabendo que a convivência era pacífica e dentro das possibilidades bastante ativa por ali. Certamente pela providência divina, esses movimentos fariam desenvolver concomitante à formação espiritual, o senso lógico de uma nova vida familiar.

A presença de um sacerdote no lugar, a princípio em visitas bastante espaçadas e posteriormente residindo no lugar, foi o momento mágico para uma mudança na identidade social do povo. O homem de Deus, sábio e sob inspiração divina, foi paulatinamente motivando a implantação de movimentos religiosos por ali. Pudesse talvez ser essa, a oportunidade que faltava para que aquela gente pudesse viver melhor conhecendo algo religioso além da vida de alguns santos dos quais haviam muitos devotos.

É claro que o principal objetivo desses movimentos era a vida espiritual do povo. A decorrência desse fortalecimento interior das pessoas e da convivência mais íntima com os membros dos movimentos iriam gerar o despertar de consciência crítica  decorrendo em uma influência muito grande na formação social e cultural do povo.

Algumas pessoas do lugar trouxeram relatos de experiências de outras localidades onde esses movimentos já existiam. Com isso, convocados pelo sacerdote, deram logo início à estruturação dos primeiros movimentos. Tudo seria organizado e dirigido pelo padre, fato importante para que os coronéis aceitassem que membros de sua família participassem das reuniões, a princípio quinzenais.

Foram criados em um curto espaço de tempo, dois movimentos. Para as mulheres criou-se  o “Filhas de Maria” e para os homens  o “Congregados Marianos”.

As reuniões eram recheadas de orações e meditações e ainda serviam como oportunidade de planejamento de participação dos integrantes do movimento nas ações litúrgicas e pastorais a serem levadas a efeito no arraial. Com isso, foram sendo criados laços de amizade bastante sólidos, desencadeando em uma cumplicidade muito interessante na prática da caridade, da solidariedade em momentos importantes da vida social.

Não houve uma mudança imediata na forma de pensar e de agir daquele povo. Talvez até de forma inconsciente, pequenas sementes de um novo momento social foram plantadas, sob a égide da igreja e as bênçãos celestes.  O desenvolvimento  e o fortalecimento espiritual possibilitou a formação de pensamentos que foram desenhando uma nova história para aquele povo.

Os coronéis respeitavam muito a presença do sábio sacerdote nessas reuniões de movimentos, o que certamente foi importante para que eles não fossem sufocados pelo medo de um novo modelo de sociedade que veio mais tarde ser implantado.

Do grupo “filhas de Maria” participavam apenas mulheres solteiras. A característica mais marcante que identificava as moças membros do grupo, é que elas participavam das atividades vestidas em branco, saia comprida e blusa de manga longa. Era exigência a cor e o modelo. Para participação nas celebrações eucarísticas e atos religiosos como procissões, era obrigatório como adereço um véu branco sobre a cabeça, uma fita azul à cintura e outra da mesma cor aos ombros.

As primeiras participantes  foram indicadas pelas senhoras que frequentavam as atividades litúrgicas da igreja. Bastou o convite a uma ou outra e as interessadas apareceram aos montes.

As mulheres casadas não poderiam frequentar o mesmo grupo que as donzelas. Para elas foi criado o grupo “ Irmandade do Sagrado Coração ”. Essas deveriam usar vestes no mesmo modelo, na cor preta. O véu sobre a cabeça também era preto e a fita de identificação no pescoço era vermelha.

Nesses dois grupos as reuniões eram dirigidas a princípio pelo sacerdote, e era recheada de orações e meditações. Concomitante, assuntos paralelos referentes à vida das famílias, ao comportamento social e cultural, tudo à luz da orientação espiritual do padre. Isso foi um ponto importante pois enquanto com as moças plantava-se discretas sementes de uma nova sociedade, com as senhoras esporádicas luzes de uma nova família em moldes modernos. Por isso esses primeiros movimentos religiosos foram instrumentos importantes para a formação do povo desta terra.

Para os homens criou-se os “Congregados Marianos”. Esse grupo foi um pouco mais difícil de montar, dado à resistência de grande parte da população. Os mais radicais não admitiam aquilo a que chamavam de frescura que, para eles, contradizia ao machismo exacerbado dominante então. Alguns poucos homens casados e outros solteiros deram início a esse importante grupo de leigos.

Assim como para as mulheres, as reuniões tinham cunho religioso, também recheado de orações, meditações. Também a esses, a sabedoria do sacerdote e a luz divina fizeram com que fossem plantadas sementes de uma revolução social e cultural que viria décadas depois. Foi um trabalho moroso e paciente que só mesmo a proteção divina poderia fazer perseverar tamanha as dificuldades.

A presença desses 3 grupos foi pedestal e suporte principal para a formação da consciência crítica do povo da época, muito embora não fosse esse o objetivo principal das reuniões e da criação dos mesmos. Os grupos facilitaram muito a convivência entre os cidadãos, a proximidade entre eles gerou opiniões comuns. Além disso, abriu-se uma efetiva participação dos leigos em algumas ações litúrgicas da igreja. Grande parte da população não era muito frequente à missas, procissões, terços, novenas, na forma do que era permitido para leigos na época. Destaque-se que naquele tempo os leigos não tinham muito espaço nos rituais sagrados. Dentre muito pouco tempo aqueles que eram frequentes aos grupos se orgulhavam disso, o que foi muito importante.

Não haveria de tardar muito e foi criado a “irmandade de São Tarciso” para adolescentes e jovens, com o mesmo objetivo só que adaptado à fase de vida dos participantes. Também esse foi um movimento religioso muito importante.

Depois disso, veio a estruturação do arraial que daí a pouco se tornara distrito e posteriormente cidade. Nesse entremeio instalou-se  no lugar a sociedade de Sâo Vicente de Paulo, o mais importante movimento de assistência social e religiosa existente até hoje no pais. Os vicentinos foram responsáveis por incontáveis ações de amparo e assistência aos menos favorecidos assim como formação religiosa dos congregados e consocias dessa sociedade .. E se somos

Por fim poderíamos dizer que os movimentos religiosos foram e continuam sendo  por aqui, responsáveis diretos também pela formação social do povo lagoense, além é claro dos seus objetivos religiosos. Talvez não fossem as pequenas sementes plantadas no início de nossa formação como comunidade, poderíamos ser hoje uma sociedade diferente cujos destinos não poderíamos precisar.  Poderíamos até estar em estágio mais elevado de progresso ou não. O fato é que devemos nos orgulhar muito  desse canto de Brasil que escolhemos como terra nossa. E devemos muito daquilo que somos a esses homens e mulheres que iniciaram décadas atrás o desenho de uma sociedade nova, sem muito resquício do machismo e da dominação muitas vezes dominante naqueles primeiros tempos. E esses movimentos religiosos foram responsáveis direto pelos contornos desse desenho de sociedade que somos e vivemos hoje.

Um abraço e até a próxima.

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