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Locais que fizeram a história em Lagoa Formosa – COLUNA CÉLIO FONSECA

No último texto desta nossa coluna falamos a respeito do Bar da Alda, um importante ponto de encontro social para os lagoenses lá pelos idos de 1960 e vindouros. O Bar da Alda além daquilo que já comentamos, ficou marcado na história por um fato simples porém significativo para a nossa população na época. Neste estabelecimento foi possível a muitos cidadãos contemporâneos, ver pela primeira vez uma transmissão através do velho e bom aparelho de TV em preto e branco. Ao cair da tarde, quando o sol esmorecia no horizonte amarelo, uma novidade chamou a atenção no Bar da Alda. Três ou quatro homens, a custa dos musculosos braços treinados na lida com o gado ou no manuseio da terra, erguiam aquele enorme aparelho de TV para confortá-lo sobre um muro que ficava ao lado do prédio desse bar. Força daqui, força dali e finalmente o aparelho estava no lugar. Era hora agora do improvisado técnico providenciar aquela enorme fita que ligaria o aparelho à antena que acompanhava  tudo reinando no alto de uma vara devidamente preparada para isso. Na rua e na calçada oposta, alguns curiosos acompanhavam tudo, sedentos pelo primeiro sinal luminoso na tela da TV. Ainda demorou um bocado para que a curiosidade dos presentes pudesse ser saciada. A esta altura, uma pequena multidão estava ali, pois a notícia se espalhou rapidamente pelas ruas e becos do lugar. De repente a tela brilhou. E uma decepção tomou conta dos olhares curiosos, pois um intenso chuvisco foi a primeira imagem visualizada. Depois, alguém resolveu manusear aqueles controles ao lado da tela do aparelho, mas não foi o bastante para que surgisse a imagem. Uma pessoa, ao pé da vara suporte da antena, rodava a mesma para esquerda depois para a direita, procurando uma posição melhor. Daí a pouco a primeira imagem pode ser vista, assim mesmo com certo esforço visual, pois a qualidade dela era sofrível. A emissora sintonizada era a TV Itacolomi de Belo Horizonte que, a todo momento exibia publicidade da Drogatel Araújo através de uma divertida animação, para alegria dos olhos infantis que brilhavam tanto quanto a tela do aparelho. Isso sem contar com o mascote da emissora, um indiozinho que para delírio dos olhares curiosos que não se desviavam do aparelho, anunciava cada uma das novidades da programação.

Com isso o Bar da Alda tornou-se o primeiro ponto público onde os lagoenses puderam ver também pela primeira vez as imagens televisadas. Algumas residências tiveram logo seus aparelhos particulares mas publicamente, o Bar da Alda foi o primeiro  neste particular.

O Bar da Alda teve seu momento de glória quanto ao ponto de encontro social. Não tardou muito e algumas pessoas pensaram em criar um lugar onde a “mocidade” de então pudesse se reunir para conversar e se divertir nas noites locais. O Bar da Alda ainda tinha lá seu charme devido ao vai e vém da Rua da Genésia. Nos moldes de experiências vividas em outras cidades, surgiu a idéia de se ter um local mais reservado, que oferecesse outras oportunidades de diversão além da “sinuca” do Bar da Alda e do vai e vém na rua. Foi criada então a sede social do Santa Cruz, (agremiação esportiva de Lagoa Formosa) para que os associados desse clube esportivo pudessem se reunir. O associado do clube de futebol teria acesso à sede social podendo desfrutar daquilo que o estabelecimento oferecia. Quem não era associado certamente deveria contribuir com uma módica quantia financeira para ter acesso livre. Ali se oferecia mesas para jogos de cartas ( sem apostas financeiras) pista de dança e mesa de pingue pongue, além de músicas modernas de iêiêiê ( o ritmo do momento), numa vitrola de última geração. Acrescente-se a oportunidade de um bom papo e encontros com amigos velhos e novos já que eram muitos os que ali frequentavam.

O local chamou logo a atenção da sociedade. A sede social tornou em pouco tempo o point da moda. Rapazes e moças tão logo completassem 15 ou 16 anos, iam logo pedindo permissão paterna para frequentar o lugar. E eram muitos naquele pequeno espaço social. Na entrada o barzinho logo à direita, bem em frente à pista de dança que raramente ficava vazia. Ali alguns esnobavam suas habilidades no salão enquanto outros tentavam se especializar na dança do “tuíste”, ritmo que explodia nas paradas de sucesso das principais emissoras de rádio do país. Um pouco mais ao fundo, outros se divertiam no jogo de canastras popularmente chamado de jogo de buraco. Não faltavam daqui e de lá, pessoas assentadas conversando animadamente enquanto deliciavam-se com um petisco ou uma bebida. A soberania da sede social quanto a ponto de encontro dos moradores locais sobreviveu alguns anos. Depois por motivos naturais a sede foi perdendo o glamour e terminou por ter o seu fim decretado. A juventude de então ficou inconformada e clamava por outro local similar para as reuniões noturnas. Foi então que os irmãos Valdir e Adilson Caixeta resolveram reativar um estabelecimento nos mesmos moldes da sede social, o Barzinho “Eristow”. Foi uma satisfação geral a reabertura do similar à sede, no mesmo local à Rua Clarimundo Fonseca (onde hoje se localiza uma clínica e uma loja veterinária) e com o mesmo objetivo. E aí a motivação da “mocidade” da época foi muito maior ainda. Adolescentes sonhavam em alcançar a idade necessária para frequentarem o ambiente, pois era costume da época que adolescentes não frequentassem o local. Os pais eram bastante rígidos quanto a isso.

Ao ritmo da grande revolução social ocorrida no país nesta década de 1960, com o advento das ideias de liberdade defendidas pela sociedade alternativa dos hippies, dos jovens universitários dos grandes centros do país, dos artistas que realçavam nas músicas e nos textos literários o rompimento das amarras da sociedade conservadora e paternalista das décadas anteriores, a sede era o ponto de se falar dessa liberdade, de se traçar nuances comportamentais para autoafirmação na sociedade que ainda vivia as normas e costumes fundamentados deste os tempos de arraial. Desta forma, a sede (que depois se tornou o Barzinho do Valdirzinho e do Adilson) desempenhou um papel de muita importância para que Lagoa Formosa pudesse estar devidamente integrada aos tempos sociais vividos no país. O fato é que a juventude não se conformava com os costumes arcaicos e sonhava com o estabelecimento de uma nova estrutura oriunda da revolução social de então. Para que fosse possível a inauguração de um novo tempo, era preciso muita conversa, muita troca de experiência além de um conhecimento lógico daquilo que se propunha para o estabelecimento de um novo tempo. A sede tornou-se o quartel general de rapazes e moças para que se enquadrassem nesse tempo que se instalava no país. As confabulações havidas na sede eram algo natural que nasciam do bate papo comum e  informal. Não havia qualquer outro intuito não fosse a diversão. Tudo acontecia de forma inconsciente. Ninguém previa o bem que os bate papos havidos ali iriam fazer para a comunidade lagoense. Então, as reuniões sociais na sede não tinham o cunho político  ou acontecia premeditadamente como uma reunião de clube de serviço ou de uma organização. As coisas eram naturais. Ninguém ia à sede com outro objetivo senão conversar, ouvir música, dançar, jogar cartas ou pingue pongue. E nas conversas, inconscientemente, as pessoas iam trocando ideias, informações, e construindo no imaginário pessoal uma personalidade própria que determinasse um posicionamento diante da situação social de então. Enquanto extravasavam no final de um cansado dia de trabalho, acabavam criando laços fortes de amizade e traçando comportamentos comuns para a vida social que se inaugurava.

Muitos certamente não entenderão a importância deste estabelecimento para a  juventude da época. As transformações que aconteciam no país na década de 60 faziam balançar as estruturas das famílias conservadoras que herdaram costumes vindos nas bagagens dos tropeiros e dos primeiros colonizadores, encravados como pétreos pelas primeiras famílias do arraial que se formou. As mudanças sociais promovidas na década de 60 esmigalharam certos conceitos até então inabaláveis para um povo extremamente conservador. Para se adequar a esse novo tempo e para não ficar a margem da realidade que se vivia, a juventude teve que se fortalecer através da  união, da coragem e do desejo de ser jovem de seu tempo. Mas para isso era preciso romper amarras consideradas eternas.

Por tudo isso, assim como o Bar da Alda teve seu papel social na sociedade lagoense, a sede social do Santa Cruz (e depois o Barzinho Eristow) teve uma importância ímpar no desenvolvimento social de Lagoa Formosa. Este mais ainda porque surgiu justamente num momento em que grandes mudanças sociais estavam acontecendo e a juventude lagoense precisava se reunir para fortalecimento da classe no enfrentamente à resistência das famílias conservadores  que não viam com bons olhos os tempos novos que se instalavam. Então é mister que se registre nos anais da nossa história a sede social, pela sua importância como palco não apenas da vida da juventude de então mas de uma oficina onde se construiu patamares para a grande revolução social em solo lagoense.

A sede social de forma inconsciente tornou-se QG para reunião daqueles que promoveriam a maior revolução social que nascia no íntimo de uma juventude fogosa, porém conhecedora da necessidade de viver o tempo e se integrar definitivamente a ele, para não estar à margem da vida.

Até a próxima.

Sair Célio Moreira

Célio Moreira da Fonseca é professor de Ensino Médio, graduado em Ciências, com habilitação em Matemática pela Faculdade de Filosofia Ciências e Letras de Patos de Minas. Foi repórter e redator da Rádio Princesa de Lagoa Formosa ( hoje Rádio Vitoriosa), chefe de Gabinete e Secretário de Educação da Prefeitura Municipal de Lagoa Formosa. Teve artigos publicados na Folha Diocesana e na revista A Debulha, ambos de Patos de Minas. É autor e diretor teatral, além de pesquisador da história de Lagoa Formosa sobre a qual escreveu 3 livros, sendo dois publicados e um deles no prelo.

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